Os jogos dos garotos samarras, já não foram os jogos dos meninos Samarras de 2ª e 3ª gerações, dos anos 70/80; aqueles construíam os seus brinquedos, estes pedem aos pais para lhos comprarem nas lojas da especialidade e eles compram.
Os destes jogam-se em casa, na sua maioria, em computadores, tabletes ou consolas, e bem acomodados nos sofás, ou em pavilhões desportivos e polivalentes; os daqueles jogavam-se nos terreiros da aldeia, conforme as estações do ano e sujeitando-se aos vagares que os seu progenitores lhes concediam.

Se muitos de nós nascemos garotos, nas maternidades samarras, nos idos anos de meados do século XX, agora, felizmente, já todos nascem meninos e meninas e já não nascem nas casas de suas mães. Em questão de jogos, tal como em questão de modo de vida de garotos/as, versus, meninos/as, houve grandes e substanciais mudanças e para que os meninos de hoje, possam imaginar como os seus pais e avós se divertiam e desenvolviam as suas aptidões e para que os da minha geração não os esqueçam, vamos recordar alguns destes jogos.

Um dos mais populares era o jogo do pião:


Este, um exemplar comprado numa das feiras dos arredores, porque a maior parte eram de fabrico próprio, artesanal, feitos de pau de amieiro, pau fácil de trabalhar, do qual também se faziam os tamancos/as e quem não tinha habilidade para a sua feitura ou se tinha possibilidades monetárias, comprava-os em Pinhel, Trancoso ou V. F. das Naves, mais aprimorados, como o da foto. 
É um jogo muito antigo e também se joga na terra samarra desde tempos bem remotos pelos garotos e rapazes. O pião é embaraçado com um cordão e atirado ao chão, e com jeito e arte, ele fica a rodar, mais ou menos tempo dependendo da habilidade do lançador, que também o pode apanhar do chão, a rodar, para a mão. O seu peso poderia ter cerca de 50 gramas. 
O jogo podia comportar vários jogadores; por exemplo, no jogo da roda-bota-fora ou no jogo de atingirem uma determinada distância, em que uns procuravam dificultar a tarefa dos outros, tendo como objecto; no primeiro, deitar fora da roda um dos piões, ou com ele atingir um objectivo com toques sucessivos dados pelos piões de uma das equipas, em contraposição com a equipa adversária, que tenta dificultar o atingir do objectivo. 
Os vencedores tinham direito a dar um certo número de “nicas” no pião que estava a ser expulso ou rolado. Os garotos jogavam-no no terreiro da escola, nos intervalos das aulas ou no fim destas. 
O jogo do pateiro: 
O jogo do pateiro era jogado com duas peças, a mãozeira com cerca de 50cm e o pateiro, com cerca de 15cm, que podia ter mais do que uma formato. 
Neste jogo também podiam participar vários jogadores e o seu objectivo era: com a mãozeira, levantar o pateiro do chão e já no ar atirá-lo com a mãozeira o mais longe possível e quem alcançasse a maior distância ganhava. Devido à perigosidade de atingirem alguém ou alguma das poucas vidraças que existiam, era jogado mais no campo, quando se ia com o “vivo”, ou em terreiros largos.


O jogo do fito: 
Que também era jogado por vários intervenientes, mais homens e rapazes do que garotos; consistia em derrubar o pino ” pinoco” que era colocado a uma determinada distância do ponto de onde se lançavam as malhas, daí também ser conhecido por ”jogo da malha”: malhas que podiam ser de metal ou de pedra, feitas de lascas de pedra de chetas, ou com uma pedra de ocasião, tirada de um muro por perto. A pontuação era atribuída, sendo a mais alta para quem derrubasse o “pinoco”, seguida de quem colocasse a malha mais perto do mesmo. O jogo podia ter um determinado tempo, em face das partidas convencionadas, ou sobretudo nos garotos, no tempo que durasse o recreio da escola, quando jogado nesses dias.



O jogo do cântaro: 
Consistia numa corrida de burros “em pelo”, com os concorrentes em cima, que empunhavam um varapau ou uma moca e que tentavam atingir e partir os cântaros, que se encontravam suspensos ao longo do percursos da corrida. Também se podia praticar como a foto demonstra em que o jogador tem os olhos vendados e procura atingir os cântaros. Estes cântaros acolhiam no seu interior surpresas que podiam ser, nomeadamente: água, farelo, gatos, coelhos, ou outras surpresas. Outro dos jogos para dias domingueiros ou de festas.


O jogo da corda: 
Escolhiam-se os parceiros, à vez, e depois posicionavam-se os grupos, um de um lado e outro de outro e cada grupo procurava arrastar o outro para o seu campo e quem o conseguisse ganhava o jogo.



O jogo do saco: 
Em que os garotos se metiam dentro do saco e assim, com os movimentos de pernas limitados, procuravam cada um, per si, atingir o fim da meta o mais rapidamente possível. Recordo-me de também se jogar na festa da Sra. das Fontes, tal como, o jogo da corda, quando também se faziam actividades lúdicas nesse dia.


O jogo do eixo: 
Um conjunto de garotos à distância de cerca de um metro, uns dos outros, curvavam-se e os outros tentavam, apoiando as mãos nas costa dos que estavam curvados, passar por cima e os que saltavam, de seguida tomavam a mesma posição a seguir ao último que saltaram e assim sucessivamente, todos se curvavam e todos saltavam, às vezes dizendo “eixo-re-baldeixo” e dando com os tamancos no rabo do parceiro que estavam a saltar. Era jogado sobretudo no inverno para aquecerem.


Jogo das andas: 
Neste jogo podem participar vários jogadores, determina-se um ponto de partida e outro de chegada e o que atingir o ponto de chegada mais rapidamente é o vencedor. Quem caísse teria de recomeçar de início. Este tal como outros jogos, o jogo do saco, da corda, etc., era jogado sobretudo nas festas e por vários jogadores.



O jogo da atiradeira: 
Conhecido também por ” jogo da fisga”, a atiradeira de construção simples: bastava um pau com duas pernadas abertas, tal como o da figura, duas borrachas elásticas e o suporte das pedras em sola, era o suficiente para construir esta arma artesanal de arremesso. Com ela tentava-se acertar num determinado objecto, a uma distância estabelecida, ou nuns passaritos, quando ainda não era crime atirar sobre eles, nomeadamente nos pardais.



Jogo do pau ensebado: 
Jogo individual em que a luta, o esforço, era entre o jogador e o pau ensebado; o pau, um tronco, o mais liso possível e ensebado a partir, mais ou menos da altura de um homem e o jogador, que procurava atingir o seu cume, onde poderia estar pendurado um peixe de bacalhau, um presunto ou um garrafão de vinho e esse era o prémio para o esforço e brio de quem o conseguisse atingir.


O jogo do ferro: 
Jogado por homens ou rapazes, em ribanceiras com o terreno molhado, daí jogar-se sobretudo no Outono ou Inverno. O jogador munia-se de um ferro que fazia balançar entre as pernas ou de braço a braço, para ganhar balanço e atirava-o para a frente e para que contasse pontos, tinha de ficar espetado no chão e virado para o jogador, daí jogar-se em terrenos moles ou encharcados. Ganhava quem o conseguisse atirar mais longe. 
Os ferros tinham as pontas aguçadas, o que não acontece com o da foto, pois eram instrumentos de trabalho no dia a dia, quer nas minas, quer na abertura de valados para a plantação de bacelo, oliveiras ou para movimentarem um pedra, para um muro, de dimensões consideradas. Tinha um comprimento de 1,5/2 metros. 
Um dos locais onde era jogado, era na ribanceira do Outeiro, antes da requalificação e da implantação do jardim que ali se encontra.


O jogo do prego: 
Para se jogar este jogo era suficiente um monte de areia ou de terra solta e uns poucos jogadores, munidos de um prego com cerca de 15 cm, tipo “prego caibral” e lançavam-no, todos da mesma maneira e o primeiro jogador é que dava o mote, para o “monte”e este deveria ficar espetado, se ficasse deitado acabava aí a sua prestação.


O jogo da roda: 
O jogo do arco ou da roda e um arame, que guiava a roda, era mais uma criação de alguns garotos samarras com que se divertiam, percorrendo os terreiros ou as ruas da aldeia, por vezes fugindo do cachorro, que, incrédulo com o que lhe passava à frente, os saudava com hilariantes latidos, ou os procuravam acompanhar, ora correndo à frente ou atrás.


Trotinetas e carrinhos: 
Também se viam, mas eram só para os mais engenhocas que se passeavam neles, pelas ruas de inclinação adequada em que os tamancos serviam de travões.

O jogo da sueca: 
Era jogado mais pelos rapazes e sobretudo pelos homens que frequentavam as tabernas nas tardes de domingo e com as mesmas regras que hoje é jogado; aqui os garotos eram assistentes mudos, sobretudo se jogado fora das tabernas. 
O jogo da raiola: 
Que já descrevemos, aquando das crónicas “As Tabernas Samarras”, pois era jogado, sobretudo, nos bancos corridos das tabernas, pelos homens. 
O jogo da bola: 
Finalmente o jogo da bola, que era jogado no terreiro da escola, sobretudo com bola de trapos ou até, imaginem, com uma pinha. Mais tarde os rapazes e homens conseguiram que o arrendatário da “Quinta de Valongo” cedesse um pedaço do lameirão, junto do cruzeiro da Ermida, aos cedros e fizeram ali um campo de futebol, hoje está do lado oposto da estrada, cedido em contrapartida à não passagem pelo olival que este tinha ao Senhor dos Aflitos, onde, pelo atravessar deste se tinham feito um carreiro-passadiço, promessa que os Samarras cumpriram, e os jogos que mais ali se realizavam, eram entre solteiros e casados. Os casados no dia seguinte estavam todos partidos, porque as suas tarefas campesinas ou nas minas, não se faziam propriamente a correr e os sapatos domingueiros, de certo que, também não eram os mais adequados a esta actividade de pontapé na bola.

Os jogos das garotas, eram outros:
O jogo da péla:
Consistia em atirar ao ar ou contra uma parede, uma pequena bola “péla” e que tentavam apanhar sem que tocasse no chão, batendo ou não palmas, rodando ou não sobre si, enquanto a bola ia e vinha.
O jogo das pedrinhas:
Por, por norma, era jogado com 5 pedrinhas, normalmente no terreiro do adro da escola e nos recreios desta, que se atiravam ao ar e ao caírem no chão não deviam ficar umas sobre as outras. A jogadora pegava numa das pedrinhas, lançava-a ao ar e com a outra mão apanhava uma outra pedrinha, sem tocar nas outras e passava-a para a outra mão e dizia uma, de seguida lançava outra pedrinha respeitando os mesmos procedimentos do primeiro lançamento. Ao lançar a última dizia arrebanha tudo.

A sequência do jogo é feita com o lançamento de duas pedrinhas e depois com três em simultâneo, tornando-o de mais difícil execução.


O jogo da cabra-cega: 
Fazia-se uma roda com vários jogadores, um deles ia para dentro da roda e vendavam-lhe os olhos, os outros rodando, procuravam furtar-se ao contacto do jogador com os olhos vendados, a “cabra-cega” e quando este conseguia agarrar um dos jogadores, procuravam identificá-lo, se o conseguisse, este jogador passava a ser a “cabra-cega”. 
Era jogado por garotos e garotas.


O jogo das escondidas….., o jogo da macaca….., o jogo dos elásticos, entre os dedos….., o jogo de saltar à corda.…., o jogo do berlinde, que muitas vezes era jogado com bugalhos; eram alguns, de entre outros jogos, que, sobretudo, as garotas samarras jogavam. Fica o desafio para que as garotas da minha idade, ou quem ainda se lembre destes, os descrevam nos comentários. 
Assim como os jogos evoluíam, também os garotos iam crescendo e passavam de garotos a rapazes, e quando lhes dava o cheiro a raparigas, trocavam os jogos das tardes de domingo, por outros mais apetecidos, que eram os bailaricos, quer na aldeia ou em aldeias vizinhas, onde se rodava ao som da concertina ou do realejo, debaixo dos olhos censórios das mães, das raparigas, que se mantinham por perto. 
Com esta, gostaríamos de contribuir para preservar a memória dos jogos, que se jogavam na aldeia samarra nos anos de antanho e alguns ainda convivem com os modernos jogos actuais e fazer votos, que os depositários destas tradições e conhecedores daqueles, não os deixem finar e se possível, os ensinem aos que, por ali ainda vão ficando, para que o futuro não os esqueça e preservem este valioso legado cultural. 
“Dada a ausência de fotos samarras daqueles anos, algumas das fotos que ilustram os jogos, fomos buscá-los à net”. 


Agosto 2015 (52) 
Apaulos



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  1. Momentos de alegria,hoje está tudo mais informatizado.António,mais uma bela crônica,neste momento de tristeza para os Samarras, especialmente para vocês,

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  2. È assim que se preserva o passado histórico desta terra e este Samarra tem tido o cuidado de o fazer, por isso fica aqui o nosso bem-haja Sr. Apaulos

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  3. Que belas recordações nos trouxe aqui, obrigado, agora é só teclar! .. outros tempos, outros costumes!...
    Mantenham-nos vivos e bem vivos.

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  4. Grande descrição dos jogos da nossa meninice e juventude, se puderem conservem-nos, que este Samarra já fez o seu trabalho. Parabéns.

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  5. Acho que o nosso cronistas se equivocou nas árvores que davam os paus para os piões e tamancos;
    Apaulos não seriam os choupos em vez dos amieiros? Este sim era um pau mais fácil de trabalhar. Parabéns por mais um exelente trabalho.

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